quarta-feira, 24 de abril de 2013

Poesia do Nordeste


TRANSFORMAÇÃO
Diniz Vitorino

Se o momento é cabível para o gozo,
Frui as glórias que a vida te oferece.
Pois nem sempre o teu sol será brilhoso
E o fulgor do teu céu desaparece.

Jamais penses que o rio que hoje cresce
Cristalino, abundante e caudaloso,
Seja eterno, não seca, permanece
Perenal, romanesco, impetuoso.

Que aproveites o cheiro fascinante,
Que se evola da pluma aconchegante
Do lençol de cristal da tua aurora.

Se esmagares nos pés teus madrigais,
Com certeza amanhã tu não terás
O que tanto tens hoje e jogas fora.


Poesia do Norte


 A Dor Maior
JG de Araujo Jorge

Não quis julgar-te fútil nem banal
e chamei-te de criança tão-somente,
- reconheço, no entanto, infelizmente,
que, porque te quis bem, julguei-te mal.

Pensei até, ( e o fiz ingenuamente...)
ter encontrado a companheira ideal...
Quis julgar-te das outras diferente,
e és como as outras todas afinal...

Hoje, uma dor estranha me consome
e um sentimento a que não sei dar nome
faz-me sofrer, se lembro o amor perdido...

A dor maior... A maior dor, no entanto,
vem de pensar de ter-te amado tanto
sem que ao menos tivesses merecido!...



Do livro: "Os Mais Belos Poemas Que O Amor Inspirou"
Vol. I -  1a edição 1965 ).in .
http://www.jgaraujo.com.br/belos/a_dor_maior.htm

domingo, 14 de abril de 2013

Soneto


SE VOLTARES
Rogaciano Leite

Como sândalo humilde que perfuma
O ferro do machado que lhe corta,
Eu hei de ter minha alma sempre morta
Mas não me vingarei de coisa alguma.

Se voltares um dia à minha porta,
Tangida pela fome e pela bruma,
Em vez da ingratidão, que desconforta,
Terás um leito sobre um chão de pluma.

E em troca dos desgostos que me deste,
Mais carinho terás do que tiveste,
E os meus beijos serão multiplicados.

Para os que voltam pelo amor vencidos,
A vingança maior dos ofendidos
É saber abraçar os humilhados.

Poesia Nordestina


O NÃO DO AMOR
Jessier Quirino

Uma caboca faceira
Esqueletou meu juizo
Pousou sem nenhum aviso
No corpo nu da paixão.

Uma fofinha malvada
Uma fofura morena
Uma almofada de pena
De sobre-cu de pavão.

Meu tangedor de viver
Ganhou um trote seguro
Escutando com apuro
A fala dessa mulher
Nem escura nem acesa
Água quebrada a frieza
Na fonte do bem-me-quer.

Contorniei as fronteiras
Do corpo da caboquinha
Que nem a fada madrinha
Com varinha de condão
Que mesmo dizendo NÃO
Só parecia que sim
Pois NÃO de amor é assim
Se engana com o coração.

Porque o NÃO do amor
Tem sentido diferente
Um NÃO bem forte diz: NÃO!
Depois um NÃO displicente
Traz dez NÃOZINHOS manhosos
Pra bem juntinho da gente.

domingo, 7 de abril de 2013

Folclo-rindo


POSSO PERGUNTAR?
Fabiano Regis

Atendendo ao convite da minha tia “Maroca” eu e a família fomos no domingo de páscoa, a sua casa. Na chegada, rezas e cânticos anunciavam a religiosidade da anfitriã. Em volta da mesa farta para o almoço pascal, tinha primos, vizinhos e dois padres que se acotovelavam. Servido o almoço, um padre resolveu conversar com o meu filho de sete anos: _você tem cara de menino traquino! É estudioso?! 

A cara de espanto e o silêncio da criança, diante do padre, fez com que minha esposa interferisse na conversa:

_isso mesmo padre. Aconselhe esse rapaz. Ele dá o maior trabalho na hora de fazer a lição de casa.

O religioso resolveu aconselhar:

_estude muito rapaz. A igreja precisa de padres.

A criança resolveu quebrar o silêncio:

_padre pode ter mulher?

Poesia brasileira


Ai quem me dera
Vinícius de Moraes

Ai quem me dera terminasse a espera
Retornasse o canto, simples e sem fim
E ouvindo o canto, se chorasse tanto
Que do mundo o pranto, se estancasse enfim
Ai quem me dera ver morrer a fera
Ver nascer o anjo, ver brotar a flor
Ai quem me dera uma manhã feliz
Ai quem me dera uma estação de amor...
Ah se as pessoas se tornassem boas
E cantassem moas e tivessem paz
E pelas ruas se abraçassem nuas
E duas a duas fossem ser casais
Ai quem me dera ao som de madrigais
Ver todo mundo para sempre afim
E a liberdade nunca ser demais
E não haver mais solidão ruim
Ai quem me dera ouvir um nunca mais
Dizer que a vida vai ser sempre assim
E ao fim da espera ouvir na primavera
Alguém chamar por mim.

sábado, 23 de março de 2013

FOLCLO-RINDO


PÓS-OPERATÓRIO
Fabiano Regis.

           Anália filha de “Chico Caçador” saiu do sítio pitombeira, ainda jovem, e foi para São Paulo. Depois de alguns anos, se não estou enganado foram mais de oito, ela voltou bonita, elegante e cheia da grana. 
           A primeira providencia tomada por Anália, logo que chegou à casa de seus pais, foi levar sua mãe, dona “Zezinha”, ao médico angiologista para cuidar das varizes que era um problema antigo. Contratou um chofer de praça e foi para a capital. 
           Passados trinta dias da consulta, exames e cirurgia, Anália e a mãe retornaram ao médico. Depois dos cumprimentos de praxe, o médico argumentou: 
         _Dona “Zezinha” tá tudo bem com a senhora. Agora com todo respeito: rasgue esse vestido longo e bote uma saia curta, pois a senhora tem umas belas pernas. 
         Anália aproveitou o gracejo do médico e perguntou: 
         _ Doutor a minha mãe gosta de saborear algumas iguarias exóticas: peba na pimenta, arribaçã ao alho, tatu ao molho pardo e tamanduá ao forno. Será que ela vai ter algum problema com a cirurgia? A minha avó sempre disse que essas comidas são “carregadas”. 
        De pronto o médico respondeu: 
 _Escute aqui minha jovem: Posso lhe garantir que o cardápio ora relatado não causará nenhum problema a cirurgia. Já não posso dizer o mesmo com relação ao IBAMA.