quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Poesia

Desejos de poeta
                           
Quero só um bêmio como amigo,
Uma flor, o luar, uma calçada,
E um poeta na minha madrugada
Pra cantar a canção que não consigo.
                        

Uma simples mulher beba comigo,
Totalmente de amor necessitada,
Eu conduza no drinque ou na tragada
Minha última esperança pra o jazigo.

                           
Quero, sim, um boteco na cidade,
Pra que eu possa esconder minha saudade
Colocando no copo a minha dor.

                          
E o meu corpo ao perder toda a estrutura,
Alguém bote na minha sepultura
"Aqui jaz um cativo do amor".
                                           

                                  Jomaci Dantas

Folclo-rindo

A aposta.

Raimundo Badu era um sujeito que gostava muito da feira de Gov. Dix-Sept Rosado. Era sempre o primeiro a chegar e o último a sair. Os comerciantes foram notando que
Raimundo quando tomava umas e outras não queria saber mais de ir pra casa. Um certo dia Armando Gato, que tinha uma venda no mercado público, chamou ele, quando ainda estava  sóbrio, para fazer uma aposta.
___ Raimundo! Eu aposto com você que quando for às cinco horas da tarde você ainda vai estar aqui na feira. 
__ Ta apostado! Disse ele.
E assim fizeram. Já passando das cinco da tarde lá estava Raimundo conversando miolo de quartinha na bodega de Fernando aleijado e quando avistou Armando disse:
__ êta Armando véi, perdi a aposta einh home!

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Poesia

Apelidos.

No meu lugar tem apelido pra chuchu,
Pé de urso, Foléu, Zé Pra Que Veio,
Bucobuco, Xoxó e José Feio,
Chico Velho, LQT e Gabiru,
Trisca, Primo, Pissica, Capuxu,
Galo branco, Zanôi, Peba, Capão,
Carapina, Veloz e Chico Pão,
Buá, Buzi, Cigano, Passarim,
Mané Grande, Bringel, Almir Cebim,
Cassói, Indê, Totó, Bia e Pilão.

Tôin Caminhão, Cabeça, Caritó,
Biba, Come Longe, Zé Buraco,
Gato, Lalau, Tatá, Cassaco,
Luiz Brejeiro, Machado, Mossoró,
Gulum, Priquitinho de Vovó,
Calu, Pelado, Dé e Zé Bundinha,
Carão, O Aleijado de Bobinha,
Chico Brabo, Selado, Véi, Tambor,
Cheque, Batué, Diá, Vovô,
Melado, Zé Gamela e Pinininha.

Paturi, gororoba, Antôin Cotó,
Arame, Bengobengo, Caolhim,
Brizola, Foinhoinhõ, Caôi, Lecrim,
Puti, Baié e O Doido de Coló,
Rolinha, Pacau, Mané Mocó,
Valmir Quininha, Badu, Xacom, Topinho,
Ziziu, Do Amor, Gelé, Cravinho,
Moleque, Tilouro, Pirroleta,
Zuza, Severino Boca Preta,
Bacatela, Zé Côco e Fantiquinho.

Maribone, Maceió, Chico Boré,
Neto Bobeira, Bié, Dió, Correia,
Zé de Panta, Fussura, Lou, Baleia,
João da Porca, Batera e Marcha Ré,
Cearense, Carpê, Russo, Gegé,
Galo Cego, Tidoca, Bil, Tuzim,
Gafanhoto, Rucana, Bó, Grilim,
Cuca, Toinh Bolota e Pato Rouco,
Raimundo Cachorro, Chico Brôco,
Macaco, Maloqueiro e Bacurim.

João Birrada, Gueguel, Bena, Nozim,
Zôba, Tota, Sula, Carestia,
Lunga, Ganso, Pechico, Milacria,
Gilson Batata, Nêgo e guaxinim,
Chico Cangalha, Cabeção, Pomba, Fiim,
João Cueca, Pé de Boi e Gavetinha,
Prefeito, Cheiroso e Cabecinha,
Catemba, Siricóia, Camelô,
Basto, Babá, Bebé, Bobô,
Baile, Chora, Mazola e Zé Galinha.

Chico Jurema, Juju, Relaxidão,
Barruada, Canapum, Pinto, Chapéu,
Didico, Coveiro, Van, Berel,
Bigode, Bronha e Queixo de Sabão,
Tamborete de Forró e Pajetão,
Simão Tubiba, Coleza, Liu, Chinim,
Antoin Bronze, Zé de Preto, Bel, Gordim,
Infunque, Tatu, China, Poioca,
Maria Home, Moré, Pitoco e Roca,
Branco, Pé de Quenga e Pneuzim.

Muita gente quando escuta o apelido,
Sai do controle, endoida, briga, apela,
Joga pedra, fala mal, se descabela,
Muitas vezes até perde o sentido,
Jura que vai matar o atrevido,
Que acredita: agrediu-lhe moralmente,
Mas pra mim isso é indiferente,
Até porque eu tenho mais de um,
Zé Arnobe, Negão, Nonon, Bobum,
E atendo a qualquer um, tranquilamente.

Crônica

A compra

Miguel de Adolfo pisou no batente da porta da loja “A Sertaneja” e ficou ali, parado, passeando os olhos pelos produtos, até esbarrá-los na seção dos eletros. Puxou a esposa Severina pelo braço e apontou: T’ali o bichão!
Há tempos que vinha planejando a compra daquele aparelho. Foram meses de economia. Um trocado aqui, outro ali. A aquisição só se tornaria possível, graças à venda do bode “Preguiça” e da cabra “Vidinha”. Agora com o dinheiro inteirado iria finalmente realizar seu sonho de consumo: aquele rádio “ABC, A Voz de Ouro”.
Um vendedor aproximou-se sorridente e prestativo, já que o deslumbramento de Miguel diante do objeto estava dando nas vistas. __Interessado no rádio, senhor? Ora se não estava. Tinha vindo decretado a Mossoró só para comprar o produto!? Inclusive já havia encomendado uma mesinha a Silvinha da serraria para o suporte e uma toalha bordada a Maria Bengobengo para o enfeite. Havia combinado também com Severina a localização no ambiente da sala, entre a cristaleira e o oratório de Nossa Senhora da Conceição. Ia ficar uma beleza.
O rapaz da loja esmiuçou as vantagens do equipamento. Tintim por tintim. Miguel quis saber: __pega com carrego? - carrego é pilha ou bateria na língua dos agrestes. Escutou que ele funcionava tanto com pilhas, quanto com energia elétrica. Miguel procurou a esposa com o olhar e recebeu dela um gesto de aprovação. __Vou levar!
O vendedor testou e encaixotou o produto. Miguel pagou, botou a caixa debaixo do braço e saiu satisfeito com seu “ABC, A Voz de Ouro”, a maior aquisição de sua vida.
Já na calçada lembrou-se que o moço tinha lhe dito que as pilhas não acompanhavam o equipamento.
__Ei moço! E os carregos? Eu compro aonde?
O rapaz saiu da loja e apontou indicando.
__Ali na Paraíba! Estava fazendo uma alusão ao bairro mossoroense homônimo do estado vizinho.
Miguel arribou para a estação com “Virina” – nome que dava carinhosamente à esposa – e pegou o trem às três e meia da tarde rumo a Gov. Dix-sept. Chegando lá, Miguel nem fez menção de sair do veículo. Sentado estava, sentado ficou. E diante da inquietação de Severina, foi enfático:
__Tu vai pra casa, fica com os meninos, que eu preciso ir a Sousa comprar os elementos desse rádio!



 Zenóbio Oliveira



sábado, 13 de novembro de 2010

Soneto

O grilo
Zenóbio Oliveira

Caí de corpo na rede, estropiado,
Em busca do repouso mais tranqüilo,
Mas ao primeiro esboço de cochilo,
Sobressaltei-me ao ruído estridulado.

Levantei-me ainda atordoado,
Procurando a origem do sibilo,
Descobri tão logo que era um grilo,
No reboco da parede camuflado.

Aí dei de garra de um cavaco,
E cutuquei buraco por buraco,
No afã de abafar tão rude trilo,

Mas neca de sucesso em meu intento,
E para resumir meu sofrimento,
Perdi o sono e não achei o grilo.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Poesia

Tenho saudades do meu lugar, Aguilhadas, e aí fecho os olhos e vivo das lembranças...


Manhãs de Aguilhadas


Desperto lentamente do meu sono de menino,
Meus olhos modorros apertam-se à luz dilucular,
Vibra em meu tímpano o sonoroso e doce trino,
De um gurinhatã que também veio saudar,
A beleza do crepúsculo matutino,
Sem-par...

Espicho o olhar na direção do rio nevoento,
A água mansa e serena parece estar dormindo,
Alheia ao flutuar do nimbo pardacento,
Que foge ligeiro à luz que vem surgindo,
Em borrifos que logo se dissipam ao vento,
É lindo...

Um raio, incontinênti, golpeia-me a retina,
O Lampejo me desperta dos sonhos infantis,
Para que eu veja o sol abraçar a campina,
Emprestando ao sertão o diverso matiz,
Que o meu olhar de êxtase descortina,
Feliz...

Rolam pelos limbos das folhas de milho,
Derradeiras gotículas do orvalho recente,
Refletindo, à luz da manhã, o alheio brilho,
Como fosse constelação tremeluzente,
No verde céu do milharal lustrilho,
Simplesmente...

A brisa setembrina lança-me ao olfato,
O hálito primaveril da recente florada,
Que impregna a manhã de um cheiro bom de mato,
Não sei de fragrância mais adocicada,
Nada se compara a este aroma grato,
Nada...

Fagueiras manhãs dos meus tempos de criança,
Onde habitou minha gentil felicidade,
Berço do meu sonho, da minha esperança,
Que a vida iníqua me levou com a idade,
Ainda as vejo no espelho da lembrança,
E na saudade.

Zenóbio Oliveira

Opinião


Educação


Ao colocarmos a educação dentro de um processo histórico da humanidade, temos obrigatoriamente que reconhecê-la como condição natural do homem, já que esta comporta uma das necessidades básicas para a sua sobrevivência.
A humanidade evoluiu sobremaneira, saindo das segregadas civilizações culturais antigas até desembocar nas sociedades contemporâneas submetidas ao processo de aculturação provocado pela queda das fronteiras mundiais. Dos povos primitivos, onde o processo educacional constitui um conjunto de práticas na realização de atividades essenciais para a vida e na assimilação de valores e preceitos tribais, às sociedades complexas do terceiro milênio dominadas pelo poder tecnológico, em que este processo educacional já se encontra extremamente institucionalizado e metodizado, a educação deixa de existir como condição humana e passa a caracterizar-se como instrumento de formação social.
Durante as transformações por que passou a sociedade, a escola, como instituição educacional, foi se firmando como alicerce da construção do conhecimento, requisito básico para o desenvolvimento social e não intelectual do homem. Ela, a escola, tirou da educação a possibilidade de ser comum a todos e, metodizando o aprendizado passou a determinar seletivamente quem deve ou não ser envolvido nesse processo.
A educação, compreendida no seu sentido mais completo, não pode está obrigatoriamente vinculada às estruturas físicas dos estabelecimentos escolares e seus métodos disciplinadores, que conduzem o homem ao fazer, mas não o ensinam a pensar.

Zenóbio Francisco de Sousa Oliveira.