sexta-feira, 15 de abril de 2011

Rimando

DERROCADA


Muito mais que bandido ou que soldado,
Muito mais que soldado ou que bandido,
Muito mais que comando indefinido,
Muito mais que o poder dilacerado.
Muito mais do que crime organizado,
Mais que perda de ética ou de moral,
São resquícios da pane social,
Que devasta o país de ponta a ponta,
E é o povo por fim quem paga a conta,
Dessa briga que o bem perdeu pro mal.

Rimando

Bicicleta que anda Caindo a corrente,
Ranger de armador ao balanço da rede,
O diabo dum grilo no vão da parede,
De trilo constante, maçante, estridente,
Topada de jeito em beira de batente,
Roçada de calça em pé de carrapicho,
Conversa de bêbado, fofoca, cochicho,
Íngua, dor de dente, “dordói”, “panariço”,
Acredite meu caro, por Deus, tudo isso,
Tira-me do sério, me faz virar bicho.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Aumento

As auto-escolas estão cobrando muito mais caro pela emissão da Carteira Nacional de Habilitação - CNH. O preço pode chegar aos R$ 1. 200,00 - Mil e duzentos reais.

Um representante do sindicato dos donos de auto-escolas disse em telejornal que o acréscimo se deveu tanto ao aumento das despesas provocadas pelo reajuste dos combustíveis, quanto à necessidade das empresas se ajustarem às novas exigências do Departamento Nacional de Trânsito - DENATRAN, como por exemplo, a ampliação da estrutura física das escolas, principalmente nas salas de aula.

Fiquei imaginando: se o Alemão resolver aumentar um vão no seu estabelecimento vamos ter que pagar mais pela cerveja e pelos espetinhos?

Tomara que fique do tamanho que está.

Opinião


O jornalismo e a cobertura de tragédias

Um acontecimento trágico no dia do jornalismo, em uma escola do Rio de Janeiro, poderia muito bem servir como instrumento de análise nos bancos acadêmicos dos cursos de Comunicação Social. Não o fato em si, este só pode mesmo é ser lamentado por todos nós, mas a forma de cobertura realizada pela mídia brasileira.
Os apresentadores espetaculosos, com suas vozes impostadas, imprimem cada qual, seu estilo dramático ao acontecido. Um, chega a dizer que fatos desse tipo são comuns no Oriente Médio, outro, que o governo precisa colocar detectores de metais nas escolas. Um, diz que o atirador deu mais de cem tiros, outro, com peculiar empáfia, exige o controle de armas e o combate ao tráfico de drogas por parte das autoridades.
As emissoras de TV transferem o estúdio para o cenário da tragédia e trazem seus especialistas: em segurança, em educação, em saúde, em psiquiatria, em psicologia, em redes sociais, em internet, em direito civil e penal, em criminologia e o escambau. Aí começam a discernir sobre o perfil do autor do massacre. Era introspectivo, era anti-social, era filho adotivo, o pai e a mãe tinham morrido quando ele era criança, era extremista islâmico, era viciado em internet, era portador do HIV, era psicopata, era assassino em massa, era vítima de bullyng e por aí vai. Uma sucessão de conjeturas para buscar o motivo do jovem para o atentado. A ponderação do imponderável.  
Os repórteres espalhados por todos os lados vão dimensionando a tragédia. “Os tiros foram desferidos na face e no tórax das crianças... o atirador tinha experiência profissional com armas... encostou o revólver na cabeça da menina e atirou... os rostos das vítimas ficaram deformados...
Num segundo momento, levam a frente das câmeras os estudantes sobreviventes, crianças e adolescentes, para que narrem, com riqueza de detalhes, o momento da morte dos colegas e os instantes de pânico e apreensão por que passaram.
Depois trazem à tela uma espécie de imagens testemunhais dos celulares anônimos e das câmeras de monitoramento.
A história está quase pronta, mas falta algo para equivaler o real ao espetáculo das grandes tragédias cênicas. É preciso identificar o herói que deu cabo do vilão e assim é feito. Agora sim, a história está completa para ser contada pela edição caprichada dos acontecimentos.
Neste contexto a mídia, principalmente a televisiva, confere à tragédia real todos os aspectos da tragédia estética, provocando um efeito purificador nos sentimentos de temor e compaixão do individuo diante do acontecimento trágico. É o que Aristóteles denominou de catarse. Não foi comigo, estou aliviado. A espetacularização da imagem combinada à narrativa dramática dos fatos mistura realidade e ficção de tal forma que faz com que o telespectador aporte, catártico, num mundo ficcional e, isento de culpas, sinta até prazer ao apreciar a desgraça alheia, numa espécie de estética do trágico.
Diante da cobertura de todos os acontecimentos trágicos que temos vivenciado ultimamente, é necessário um debate amplo em nossas universidades e principalmente nos cursos de Comunicação Social sobre o papel do jornalismo numa sociedade marcada pela sedução dos valores estéticos e extremamente consumista. É preciso entender o jornalismo como um meio de abordagem e interpretação da realidade, direcionado essencialmente às questões da sociedade como um todo, já que individualizado torna-se nada mais, nada menos que uma mercadoria a ser consumida.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Poesia pura

Reproduzo aqui soneto do Dr. José Hugo de Oliveira,
sertanejo, como eu, que alem de poeta é advogado competente.
Zé Hugo é Dix-Septiense da gema e neste belo soneto faz homenagem a Gov. Dix-Sept Rosado, cidade do sertão potiguar, que neste 4 de abril completa 48 anos de emancipação política.


Meu sertão


Eu vim, seu moço, do sertão faz muitos anos,
Mas seus meandros eu conheço muito bem.
E se não sabes, vou dizer - eu tenho planos,
De na velhice retornar pra lá também.

Lá como aqui tem ilusão, tem desenganos,
Desesperança, amor e ódio eu sei que tem,
Ninguém mais há que esteja, pois, imune aos danos
Da violência que viceja e faz refém...

Mas lá se vê muita cabocla na calçada
- Despida a noite e de mistérios rabiscada -
Sorvendo à lua o seu encanto e sutileza.

O meu sertão, seu moço, tem o doce extrato
Da flor que o campo ornando faz vista e retrato
Essa porção que mais ilustra a natureza.

quinta-feira, 31 de março de 2011

KADAFFI E AS POTENCIAS OCIDENTAIS

* Frei Betto

As potências ocidentais, lideradas pelos EUA, botam a boca no trombone em defesa dos direitos humanos na Líbia. E as ocupações genocidas do Iraque e do Afeganistão? Quem dobra os sinos por um milhão de mortos no Iraque? Quem conduz à Corte Internacional de Justiça da ONU os assassinos confessos no Afeganistão, os responsáveis por crimes de lesa-humanidade? Por que o Conselho de Segurança da ONU não diz uma palavra contra os massacres praticados contra os povos iraquiano, afegão e palestino?
O interesse dos EUA e da União Europeia não é a defesa dos direitos humanos na Líbia. É assegurar o controle de um território que produz 1,7 milhão de barris de petróleo por dia, dos quais depende a energia de países como Itália, Portugal, Áustria e Irlanda.
O caso do Iraque é exemplar: os EUA inventaram as jamais encontradas "armas de destruição em massa” de Saddam Hussein para exercer o controle sobre um país que é o segundo maior produtor mundial de petróleo – 2,11 milhões de barris por dia, só superado pela Arábia Saudita. E possui uma reserva calculada em 115 bilhões de barris. Soma-se a essa riqueza o fato de ocupar uma posição geográfica estratégica, já que faz fronteiras com Arábia Saudita, Irã, Jordânia, Kwait, Síria e Turquia.
No próximo dia 20 de março completam-se oito anos que os EUA e parceiros invadiram o Iraque sob o pretexto de "estabelecer a democracia”. O governo de Maliki está longe do que possa ser considerado uma democracia. Em fevereiro último, milhares de iraquianos foram às ruas para reivindicar trabalho, pão, eletricidade e água potável. O exército os reprimiu brutalmente, com mortes, detenções arbitrárias e sequestro de ativistas. Nenhuma potência mundial clamou em favor do direitos humanos nem sugeriu que Maliki responda perante tribunais internacionais.
A ONU é, hoje, lamentavelmente, uma instituição desacreditada. Os EUA a utilizam para aprovar resoluções que justifiquem seu papel de polícia global a serviço de um sistema injusto e excludente. Quando a ONU aprova resoluções que contrariam a Casa Branca – como a condenação do bloqueio a Cuba e da opressão dos palestinos – ela simplesmente faz ouvidos moucos.
Kadafi está no poder desde 1969. São 42 anos de ditadura. Por que os EUA e a União Europeia jamais falaram em derrubá-lo? Porque, apesar de seus atentados terroristas, era conveniente manter ali um déspota que atraía investimentos estrangeiros e impedia que chegassem à Europa os imigrantes ilegais da África subsaariana, ou seja, todos os países ao sul do deserto de Saara.
Agora que o povo líbio clama por liberdade, os EUA ocupam posições estratégicas no Mediterrâneo. Barcos anfíbios, aviões e helicópteros são transportados pelos navios de guerra US Ponce e US Kearsarge. A União Europeia, por sua vez, não está preocupada com a democracia na Líbia, e sim em evitar que milhares de refugiados desembarquem em seus países combalidos pela crise financeira.
Temem ainda que a onda libertária que assola os países árabes produtores de petróleo elevem o preço do produto, onerando ainda mais as potências ocidentais, que lutam com dificuldade para vencer a crise do sistema capitalista.
Fala-se em estabelecer uma "zona de exclusão aérea” na Líbia. Isso significa bombardear os aeroportos do país e todas as aeronaves ali estacionadas. E exige o envio de porta-aviões às costas africanas. Em suma: uma nova frente de guerra.
O fato é que a Casa Branca foi surpreendida pelo movimento libertário no mundo árabe e, agora, não sabe como proceder. Era mais cômodo prosseguir cúmplice dos regimes autoritários em troca de fontes de energia, como gás e petróleo. Mas como opor-se ao clamor por democracia e evitar o risco de o governo de tais países cair em mãos de fundamentalistas?
Kadafi chegou ao poder com amplo apoio popular ao derrubar o regime tirânico do rei Idris, em 1969. Mordido pela mosca azul, com o tempo esqueceu todas a promessas libertárias que fizera. Em 1974, valendo-se da recessão mundial, expulsou as empresas ocidentais, expropriou propriedades estrangeiras, e promoveu uma série de reformas progressistas que fizeram melhorar a qualidade de vida dos líbios.
Finda a União Soviética, a partir de 1993 Kadafi deu boas-vindas aos investimentos estrangeiros. Após a queda de Saddam, temendo ser a bola da vez, assinou acordos para erradicar armas de destruição em massa e indenizou vítimas de seus atentados terroristas. Tornou-se feroz caçador de Osama Bin Laden. Pediu ingresso no FMI, criou zonas especiais de livre comércio, abriu o país às transnacionais do petróleo e eliminou os subsídios aos produtos alimentícios de primeira necessidade. Iniciou o processo de privatização da economia, o que fez o desemprego aumentar cerca de 30% e agravar a desigualdade social.
Kadafi mereceu elogios de Tony Blair, Berlusconi, Sarkozy e Zapatero. Como ao Ocidente, desagradou-lhe a derrubada dos governos tirânicos da Tunísia e do Egito. Agora, atira contra um povo desarmado que aspira vê-lo fora do poder.Para as potências ocidentais, Kadafi tornou-se uma carta fora do baralho. O problema, agora, é como derrubá-lo de fato sem abrir uma nova frente de guerra e tornar a Líbia um "protetorado” sob controle da Casa Branca. Se Kadafi resistir, Bin Laden pode ganhar mais um aliado ou, no mínimo, um concorrente em matéria de ameaças terroristas.
O discurso do Ocidente é a democracia. O interesse, o petróleo. E para o capitalismo, só isto interessa: privatizar as fontes de riqueza. Enquanto a lógica do capital predominar sobre a da liberdade, o Ocidente jamais conhecerá verdadeiras democracias, aquelas nas quais a maioria do povo decide os destinos da nação.

* Frei Betto é teólogo e ativista político

terça-feira, 29 de março de 2011

Verbo ad verbum

Fiz um acordo de coexistência pacífica com o tempo: Nem ele me persegue, nem eu fujo dele, um dia a gente se encontra.

Mário Lago