domingo, 13 de março de 2011

O forró e Maciel Melo

A versão de que a palavra forró seria uma adaptação da expressão inglesa "for all', foi uma das primeiras tentativas de se explicar a origem desse estilo musical tipicamente nordestino. Segundo esta versão, os ingleses da companhia que montou as ferrovias no sertão do Nordeste, promoviam festas nos finais de semana e colocavam na porta do salão uma placa na qual escreviam "For all", para avisar que a festa era para todo mundo. Esta versão, no entanto, não resiste a nenhuma análise. Primeiro, porque não era da natureza dos esnobes britânicos misturarem-se aos peões brasileiros, seus empregados, segundo porque a grande maioria destes peões não sabia ler.
A versão mais aceita é a de que Forró vem de forrobodó, termo que designa as festas do povo. Segundo Luís da Câmara Cascudo, em seu Dicionário do Folclore Brasileiro, "o termo tem curso no Ceará, para determinar os bailes da canalha". Mas forrobodó era empregado com o mesmo sentido no Rio do Janeiro e era utilizado pelo menos desde 1833 e até bem antes disso em Portugal. Forró, ou samba, eram os bailes dos cabras nordestinos, onde se dançavam coco, arrasta-pé, xote e marchinha-de-roda. É comum o termo que designa a festa acabar como nome de gênero musical, como acontece com o próprio samba, com o fado, com o maxixe e o frevo. Com o forró não foi diferente. No início dos anos 50, no Nordeste, passou-se a chamar de forró o amálgama de ritmos estilizados por Luiz Gonzaga e seus parceiros, porém somente em 1956 foi laçando o primeiro disco em que forró aparece na etiqueta como um gênero. Este disco foi gravado, na RGE, por Zito Borborema e seus Cabras da Peste, trazendo no lado A do LP, "Forró no Alecrim", de Venâncio e Corumbá.
Zito Borborema, paraibano de Campina Grande, é da segunda geração do forró. Assim como Marinês, Abdias, Dominguinhos, ele também foi apadrinhado por Luiz Gonzaga, em cujo conjunto tocou até formar seu próprio trio. Por esta época, 1956, surgiu uma leva de autores de forró, onde podem ser destacados o maranhense João do Vale, o alagoano José Cândido e os pernambucanos Rosil Cavalcanti e Onildo Almeida. E mais outro cantor procedeu a uma nova estilização dos ritmos do Nordeste, o paraibano Jackson do Pandeiro, que acrescentou instrumentos de sopro e percussão, ao tripé
sanfona/triângulo/zabumba. Cantando com uma divisão rítmica, que influenciaria muita gente, como os contemporâneos, Jacinto Silva, Genival Lacerda e Ary Lobo, e mais tarde, Gilberto Gil, Alceu Valença e outros. O forró consolidou-se como a grande música do povo nordestino. Deixou de ser apenas sazonal, ou seja, tocada em época junina, para tornar-se permanente em qualquer baile de dia santo, feriado ou final de semana. Chegou a ser o gênero musical dominante nas emissoras da região, dividindo espaço com os sambas-canção e os bolerões.

Maciel Melo

Maciel Melo nasceu em Iguaraci, cidade do sertão pernambucano, a 363 km do Recife. O pai, Heleno Louro, tocador de sanfona, ensinou-lhe desde cedo que o autêntico forró pé-de-serra não se limita a sanfona, zabumba e triângulo. Vale utilizar também o violão com baixaria, os instrumentos de sopro, o cavaquinho, o banjo e até a guitarra elétrica.
Maciel já entrou na história da música nordestina com o clássico “Caboclo Sonhador”, um sucesso com Flávio José e Fagner. Virou uma referência para onde se voltam tantos cantores do gênero, que vivem na região, ou os que emigraram para o sudeste: Xangai, Santanna, os citados Flávio José e Fagner, Zé Ramalho, Elba Ramalho.
O primeiro disco de Maciel Melo, “Desafio Das Léguas”, foi lançado em 1989. Um disco ousado para um desconhecido, com participações de Vital Farias, Xangai, Dominguinhos e Dércio Marques, que comprovam o seu talento.
Sete anos depois o álbum "Janelas" deu continuidade ao trabalho iniciado com dificuldade. No ano seguinte (1997) ele gravou o disco "Retinas". Em 1998 o artista participou do primeiro número da coletânea Só Forró, pela Kuarup. O álbum conta com a participação de grandes artistas nacionais, como Sivuca, Xangai, Dominguinhos, Marinês e Petrúcio Amorim. Em 1999 Maciel gravou o disco "Jeito Maroto"; em 2000, "Isso Vale um Abraço"; em 2001 lançou "Acelerando o Coração". Ainda no mesmo ano ele emprestou seu talento à coletânea Só Forró II (Kuarup). Nesse CD Maciel Melo gravou ao lado de nomes como Jackson Antunes, Juraildes da Cruz, Heraldo do Monte, Dominguinhos e Genaro. Já “O Solado da Chinela” foi gravado em 2002.
A temática de suas letras é fundamental para a continuidade do forró que teve as bases assentadas por Gonzagão. Não menos importante, o forró de Maciel Melo é feito para dançar. Não tem nada de forró pé-de-serra de ocasião, universitário da moda, moderno produzido em linha de montagem. É simplesmente atemporal, como toda grande música que se preze.

Depoimentos de Maciel Melo

A fogueira ta se apagando...

Hoje, o moderno é não falar de rimas. Quando Zé Dantas empunhava a pena para escrever um verso, o universo inteiro a ele se curvava, e o rei chegava com a melodia, um baião surgia, e o povo cantava, e o povo ficava naquela euforia, uma fogueira acendia, uma moça gritava, o fole roncava, era aquela alegria. A fogueira de hoje seu moço, mal acende se apaga, não tem mais Gonzaga, não tem mais poesia.
Humberto Teixeira, Zé Dantas, Zé Marcolino, João Silva, e tantos outros menestréis que fizeram escrita para a majestosa obra de Luiz Gonzaga, também merecem o nosso apreço, naquele cantinho da história da música popular brasileira, e essencialmente nordestina.
Para se cantar Luiz Gonzaga, é preciso ter no sangue, a coragem de um povo farto de sol, à espera de que um dia a chuva venha. É preciso saber das crenças, dos costumes e ter o sotaque de quem traz na alma, a aridez aguda de um povo sofrido que depois de tudo ainda continua sendo forte. É preciso ser rasgadamente sertanejo e deixar se levar na dança pelos braços de uma cabocla sestrosa e suadeira, daquelas que se derrete toda quando entra num forró.
Gonzaga, não era só um sanfoneiro. Era um gênio. O rei do baião. O ídolo da gente. E quando se aproximava o mês de junho, lá vinha ele entoando alguma cantiga geralmente em parceria com Zé Dantas, Zé Marcolino, Humberto Teixeira, Onildo Almeida, e outros tantos vates que se eu for citar aqui, esse texto que não é artigo porra nenhuma, porque não tenho catilogência suficiente para tanto, vai ficar grande que só a BESTA FUBANA. Ê tempinho bom! É por isso que digo: Luiz Gonzaga era um divisor de águas. Dividiu a história da música brasileira em antes e depois dele. Era música popular e não música pra pular. Ê! Saudade. Saudade das machinhas juninas que Paulo Carvalho tanto sente falta, e por isso, com toda razão, não dar nenhum incentivo a essa folclorização urbana e que infelizmente, Pernambuco ainda insiste em absorver qualquer merda que vem de fora, mesmo sabendo do potencial interno bruto: bruto no sentido de autenticidade, não no sentido da ignorância que tanto se propaga. Que Pernambuco ta em num sei que lugar em índice de violência. Nós não somos coniventes com isso. O problema é dos cegos que não enxergam a razão desse povo. O meu Brasil é Pernambucano e a nossa música é universal. O buraco é mais em baixo companheiro.
É aí, que eu me encaixo, e assim me acho seguidor e fiel discípulo da imensa sabedoria desse cantador. Podem me chamar de cafona, eu gosto é de sanfona, eu gosto é de forró.

A música de protesto

A música de protesto tem sempre um lugar reservado em minhas composições, sem necessariamente ser panfletária, mesmo porque não vivenciei o auge da ditadura militar. Era muito menino na época. Além disso, lá no sertão de Iguaraci, os meios de comunicação eram precários e, como sempre, dominados pelos manda-chuvas, que nunca choviam nada. Sempre estive preocupado com as questões sociais, levantando a bandeira do povo de minha terra, hasteando sempre a coerência e o direito de cada cidadão, proclamando-os em versos como fiz, por exemplo, em “Meninos do sertão”, uma letra minha em parceria com o poeta Petrúcio Amorim, que diz: “Quando me lembro dos meninos do Sertão/ beijando flores era eu em meu jardim/ qual borboletas bailarinas de quintais / e um arco-íris de esperança só pra mim / e a liberdade feito um pássaro de seda/ voava alto nos meus planos de menino / nas travessuras imitava meus heróis/ Luiz Gonzaga, Lampião e Vitalino. / Quando me lembro dos meninos do sertão/ vejo Hiroxima nos olhares infantis/ vejo a essência da desigualdade humana / num verdadeiro calabouço dos guris / Meu coração bate calado enquanto choro / a Deus imploro mais carinho e atenção / tirai a canga do pescoço dessa gente / que só precisa de amor trabalho e pão. / Adeus meu carro de boi / Adeus pau-de-arara / no ano 2000 que mal virá / cola, Carandiru, Candelária / quando isso vai parar...”. Pois é. nos meus versos, eu declamo, clamo e reclamo se preciso for. Defensor ferrenho dos meus ideais, sempre estive junto aos que lutam pelo direito de existir, e não escondo minha vontade de ver um dia um Brasil de fato e de direito como sempre sonhamos. Estive presente nos movimentos mais importantes de minha época: Movimento pelas diretas, nas campanhas que elevaram a classe trabalhadora, nos movimentos estudantis, já no finalzinho dos anos 70, enfim... Para mim, a falta de ética é algo que abomino. Continuo acreditando em tudo que apostei, não me arrependo de nada, faria tudo novamente. Sei que ainda existem pessoas sérias e capazes de honrar a crença sem tirar proveito da carência do povo brasileiro.

Migalhas

(Maciel Melo)

Não me venha com migalhas de sorriso
Não deboche nem zombe desse povo
Que só quer que amanheça um sol mais novo
A acordar com a luz de um novo dia

Quando a flâmula tremula em rebeldia
Renegados semblantes causam estorvo
Tudo sem, tudo nada, tudo torvo
E a força do bem se principia

Estilhaços de vida rasgam o pano
Desse circo patético e desumano
De algozes gentis fenomenais

Não me venha com migalhas de sobejo
Não maltrate esse povo sertanejo
Se não for pra ajudar nos deixe em paz.

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